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Entre uma visão de futuro para a educação e os sinais do presente

Inteligência artificial e computação cognitiva estão no centro das inovações tecnológicas em educação e essa é uma “evolução” inevitável. Impactados por esse cenário, os modelos de negócio precisam ser reinventados e as start-ups são a bola da vez. É uma leitura bem sintética sobre o futuro da educação, mas pode ser feita a partir do EdTech Class, evento realizado por Startse e Affero Lab, em São Paulo, no final de março.

No centro dos problemas está a educação formal e suas instituições tradicionais, como enfatizaram os conferencistas em sua absoluta maioria. Organizadas no formato clássico do século XIX, as salas de aula de hoje, por exemplo, ainda privilegiam a atuação do professor em detrimento do protagonismo de quem quer aprender. Escolas e universidades, ao que parece, estão no rol das grandes corporações lentas demais para inovar.

São muitas as soluções hoje existentes para dinamizar o espaço da aula. Há todo um ecossistema de empreendedores e investidores interessados em promover vantagens disruptivas ao sistema educacional e uma gama de estratégias e recursos tecnológicos capazes de transformar a rotina dos processos formativos.

Na visão de Andy Main, diretor da Deloitte Consulting, vantagem disruptiva é uma nova base para a concorrência na economia digital global que depende de um pensamento ousado e da vontade de rever aspectos na organização para torná-la mais ágil, rápida e pronta para aproveitar as oportunidades. Característica que entusiastas como Mauricio Benvenutti, da Startse, reconhece nos modelos de start-ups.

Dois bilhões de empregos estarão em risco até 2030 e a educação é convidada a criar caminhos para amenizar os impactos. Estudo do Institute for the Future, da University of Phoenix, aponta seis razões para um momento disruptivo:

  1. Pessoas vão viver mais e tendem a ter mais de uma carreira ao longo da vida;
  2. Trabalhadores terão de repensar suas tarefas, visto que a automação será responsável por atividades rotineiras;
  3. Poder de processamento computacional vai proporcionar nova concepção de programações e ferramentas no cotidiano;
  4. Eventos individuais tendem a ganhar vários ângulos e perspectivas através de mídias onipresentes;
  5. Comunicação em larga escala terá novo nível de inteligência coletiva em redes sociais;
  6. Expansão dos centros de Pesquisa & Desenvolvimento de grandes empresas para mercados emergentes vai ampliar o nível de competitividade.

 

São razões justificáveis, na avaliação da International Finance Corporation, uma instituição membro do Banco Mundial, para a aplicação de recursos em um modelo educacional focado nas demandas de mercado para o século XXI. Segundo Carmen de Paula, representante da IFC na América Latina e no Caribe, mais de US$ 2 bilhões já foram investidos em parceria com o setor privado.

A Microsoft, uma das gigantes no mercado de tecnologia, é outra das parceiras das start-ups nessa empreitada. E o investimento é em educação empreendedora, com o uso de inteligência artificial e softwares sofisticados, para mudar a crítica realidade brasileira quanto às avaliações do sistema educacional.

 

Nem tanto ao céu…

 

Uma das questões sobre o futuro é que, no contexto aqui descrito, ele está associado a hegemonias políticas e decisões econômicas estabelecidas em determinados centros de referência. Falando no campo da educação, essa parece ser uma questão-chave, estratégica, se usarmos um termo mais adequado.

Alex Bretas, ao tratar da Multiversidade, usou uma frase impactante atribuída a David Roberts, da Singularity University: “A maioria das universidades do mundo vai desaparecer”.

De fato, essa não é uma previsão tão nova e “disruptiva” quanto parece. Na década de 1990, o pesquisador português Boaventura de Souza Santos dizia que a educação a distância, impulsionada pela globalização da economia, iria impor o desaparecimento de instituições educacionais de países periféricos – ou por impossibilidade de concorrência ou pela sua incorporação a instituições maiores e mais “respeitadas”.

Alex Bretas aponta a aprendizagem autodirigida como caminho para se direcionar esforços no que realmente faz sentido para cada pessoa. É uma forma de educação personalizada mais pautada nas experiências e nos interesses pessoais, o que também não constitui uma novidade. A comunidade de aprendizes autônomos desenhada por Bretas é quase platônica, se pensarmos no Jardim de Academus no qual o filósofo grego organizava sua escola.

Carlos Schloschauer, da Affero Lab, chegou a afirmar que talvez estejamos chegando ao fim da educação corporativa porque o valor agora está na “aprendizagem corporativa”. Ele faz uma alusão ao fato de que processos autodirigidos precisam ser mais valorizados em função das competências necessárias ao novo cenário econômico-produtivo. Contudo, as visões de futuro focadas exclusivamente em propósitos de mercado podem negligenciar oportunidades tão disruptivas quanto as levantadas no EdTech Class.

A ideia de que a evolução tecnológica é inevitável porque dispositivos mais complexos surgem a todo o instante e substituem os mais “primitivos”, mais “arcaicos”, deve ser vista com cuidado. O pesquisador alemão Siegfried Zielinski alerta para o fato de que as hegemonias políticas e a concentração econômica são responsáveis pelo “apagamento” de oportunidades fora de um horizonte de visão sobre o futuro percebido como único.

Como diz Zielinski, inspirado na filosofia, a realidade esconde uma série de possibilidades que nunca terão valor porque, na hierarquia responsável pelas decisões sobre os investimentos no futuro, jamais serão percebidas como reais.

A frase de William Gibson, pronunciada como um mantra pelos futuristas, merece atenção. Se “o futuro já está aqui”, é porque há sinais de que os rumos estão traçados em função de esforços já direcionados para que ele aconteça do modo como um determinado grupo deseja; e se “só não está muito bem distribuído” é porque as hegemonias políticas, a convergência econômica e as hierarquias de decisão não enxergam possibilidades fora do que acreditam ser a própria realidade.

Os sinais do presente estão aí. A revolução inspirada no silício pode estar começando a perder força. Já há quem reconheça no grafeno um novo marco tecnológico. E a julgar pela velocidade das mudanças reconhecida no EdTech Class, talvez nem tenhamos tempo de perceber seus impactos.

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