Escassez de professores promete problema grave no cenário educacional brasileiro

Diante de uma perspectiva crítica, é preciso repensar estratégias.

 

Quando o assunto é o cenário mundial da educação, o documento “Education At Glance” da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma leitura obrigatória. Se formos reduzir a pesquisa ao cenário brasileiro, o estudo não fica atrás. Por entre a riqueza de dados levantados, uma questão tem chamado atenção repetidamente: o sistema educacional brasileiro enfrenta dificuldades para manter seus profissionais.

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Apesar de uma palpável desvantagem salarial – o Brasil oferece um salário inicial de cerca de US$ 13 mil por ano (pouco mais de R$ 3 mil por mês) contra US$ 30 mil da média anual segundo a OCDE – o sistema educacional brasileiro até consegue atrair jovens para a profissão. Uma comprovação disso é que a idade média dos professores da educação básica brasileira é 40 anos de idade, 5 anos a menos do que a média mundial. Junto, agregamos mais um dado expressivo: a profissão de pedagogo(a) é uma escolha frequente entre os jovens brasileiros que se formam no ensino médio e vão em busca de uma formação de nível superior.

Essas seriam boas notícias não fosse o fato de que esses dados, associados à precárias condições de trabalho, comprovam a tendência que vem sendo sentida em salas de aula de todo o país: o Brasil apresenta uma dificuldade extrema em manter os educadores, principalmente aqueles com alto grau de qualificação que buscam oportunidades de desenvolvimento profissional e ampliação de horizontes em sua carreira. Uma prova disso é que a maioria expressiva de 80% dos cerca de 2,2 milhões educadores brasileiros possui menos de 50 anos.

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Nesse sentido, falta atratividade e sobra desencanto pela profissão docente, fato confirmado pelos levantamentos e pelo notório número de licenciados que abandonam ou nem chegam a assumir a docência. Gilmar Bornatto, professor da PUCPR, afirma que “Os talentos acabam fugindo do magistério e a qualidade acaba caindo”. Paulo Zurlo confirma a tese. Depois de aposentar-se em TI, Paulo graduou-se em matemática para realizar um sonho antigo: dar aulas para crianças e adolescentes e abraçar o desafio de tornar a matemática mais atrativa em sala de aula. Pouco mais de dois anos depois, porém, abandonou a profissão de educador, dando-se por vencido frente às condições desfavoráveis de trabalho e remuneração que enfrentara durante a experiência. Segundo ele, sentiu-se desmotivado e extremamente frustrado, apesar de toda a motivação inicial.

Inovação na educação - escassez de professores

 

Agravantes do cenário educacional atual

Além de uma média salarial bastante inferior à mundial e de salas de aulas superlotadas, a reforma educacional que está em vias de ser inserida no ensino médio configura um verdadeiro desafio para o sistema educacional brasileiro. Conforme a proposta, as redes educacionais deverão implantar um sistema de ensino pautado em aprofundamento por áreas de conhecimento e interesse – Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Linguagens, Matemática e Ensino Técnico – que deverá abarcar 40% da grade de formação. Apesar do potencial da proposta, o Ministério da Educação (MEC) não possui um plano específico de formação de professores que atenda tal demanda. Em uma realidade onde 46,3% dos professores leciona em pelo menos uma disciplina onde não possui formação – a fim ou de complementar a renda ou de preencher a não-oferta de profissionais da área interessados em lecioná-la – o quadro então se torna alarmante.

Falta de investimentos em pesquisas impacta no desenvolvimento da inovação na educação

Apesar do alto número de interessados em pedagogia, os cursos de formação em docências específicas, que seriam exigidos no novo plano educacional, não são considerados atraentes. Junto a isso, a possível reforma da previdência, proposta pelo atual presidente, poderá afetar diretamente a aposentadoria dos professores da rede privada, assim como 1,5 milhão de professores da rede pública, que podem perder a aposentadoria integral. Conforme o professor Oswaldo Teles, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimento de Ensino Privado (Contee), esse seria “o maior retrocesso para a categoria, que sofrerá com a retirada de um dos poucos benefícios da carreira.”

Inovação na educação - escassez de professores

 

Novas perspectivas e soluções podem mudar este quadro

De acordo com o portal Nova Escola, especialistas afirmam que um maior incentivo salarial seria a principal medida a ser tomada para contornar a situação. Esse, porém, não é o único ponto que exige reflexão e novos contextos de ação. Para Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, os educadores necessitam de políticas de incentivo. Segundo ele, “o investimento precisa ajudar a aprimorar as condições de trabalho, com melhoria da infraestrutura escolar e ações consistentes de formação continuada, por exemplo”.

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É preciso colocar em pauta a melhoria da gestão administrativa do sistema de ensino como um todo, incentivando uma maior integração entre os níveis gestacionais que perpassam redes de ensino, secretarias, diretorias regionais e nacionais e escolas. Por fim, melhorias na infraestrutura e inserções de novas ferramentas de didática e tecnologia – junto, é claro, de ações de suporte e capacitação para os professores – seriam capazes de reacender a paixão pela docência e entregar novamente aos educadores condições de trabalho condizentes com o seu nobre papel.

Inovação na educação - escassez de professores

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