Soluções, sensibilidade e formatos das escolas: Nadine Heisler e André Gravatá apontam caminhos sobre a educação brasileira

Existem diversas formas de pensar a escola, apontando soluções plurais para contribuir com o desenvolvimento da educação.

Muito se fala em soluções externas, vindas de outros países, para os problemas existentes na educação brasileira. Porém, tendo um país continental como é o Brasil, uma só solução não se aplicaria em todas as regiões, de norte a sul, pois há uma grande diversidade cultural entre cada estado. Pensando nisso, conversamos com a engenheira, educadora e coautora do aplicativo DomlexiaNadine Heisler, e com o escritor, educador e coautor dos livros  Volta ao Mundo em 13 Escolas e Mistérios da Educação, André Gravatá, sobre quais seriam as saídas criativas para alguns dos gargalos da educação no país.

 

Pluralidade nas soluções

Para o escritor, se falarmos em soluções consistentes, no plural, passamos a prestar atenção em formatos de escolas, em leis que já são conquistas sociais brasileiras e nas áreas de formação de educadores – para que seja sempre reinventada, vamos começar a olhar para essas esferas da educação que poderiam ser fortalecidas.

Pensando em formatos de escolas, André fala que as escolas democráticas são formatos muito interessantes para instigar a autonomia dos jovens. “Nas escolas democráticas, os jovens fazem projetos que partem de seus interesses. Um dos maiores gargalos da educação brasileira é afirmar o que é importante aprender dentro de uma escola no Brasil”, aponta.

Respeitando as características regionais

Para Nadine, não existe uma solução única para a questão da educação, e que de alguma forma, ela tem que respeitar as regionalidades,  características do entorno de onde a escola está inserida, além do momento em que o país se encontra.

“Quando a gente avalia as muitas escolas que vemos como modelo pelo mundo e pelo Brasil, podemos observar que elas têm muito em comum”, avalia Nadine.

Dentre as semelhanças, Nadine aponta quatro itens, o primeiro é a forma como é conduzida a gestão da escola. “Normalmente tem uma condução de gestão participativa e tem uma preocupação muito grande na condução pedagógica no desenho desse aprendizado”, explica.

Currículo dinâmico

O segundo ponto que elas têm em comum, de acordo com Nadine, é a sala de aula diferente. “Ou se trabalha com um currículo em mosaico, juntando vários conteúdos e competências de uma mesma sala de aula, como a aprendizagem ativa, que é o aprender fazendo,  avaliação integrada, que não olha só um teste, mas avalia também o desempenho do aluno ao longo das aulas e a participação dele, uma quebra de idade, com várias idades estudando juntas e a arte muito inserida na sala de aula”, afirma.

Emoções dos alunos, regionalidade e formação de novos educadores

O terceiro ponto é que ela destaca, é que a escola faça um olhar tanto para o micro, quanto para o macro. “O olhar no micro serve para trazer competências socioemocionais para aquele aluno, para que ele lide melhor com suas próprias emoções. Na macro, ela olha para o entorno, se percebe inserida dentro de uma comunidade e atua de forma positiva dentro dessa comunidade”.

Ainda de acordo com Nadine, o quarto ponto em comum dentro destes exemplos, é a questão da formação, a preocupação na formação constante tanto de educadores, quanto de coordenadores, sempre se atualizando, observando o que acontece no mundo e trazendo coisas novas que são possíveis de serem aplicadas dentro destas escolas.

Olhando para dentro

André explica que quando falamos sobre educação no Brasil é muito importante que se olhe para dentro do nosso território e tente encontrar as soluções e os caminhos também a partir das ações e projetos, nos inspirando com as iniciativas que já estão acontecendo no nosso próprio país. “Muito do nosso hábito é olhar para os outros países e tentar buscar essas respostas em contextos muito diferentes dos nossos, sendo que muitas ações potentes e relevantes têm sido realizadas há décadas no Brasil. Por não conhecermos muito dessas histórias, acabamos ignorando elas. O educador José Pacheco costuma a falar que temos que parar com a síndrome de vira-latas, que é essa perspectiva de sempre diminuir nós mesmos e o nosso país”, diz.

‘Voltas ao Mundo em 13 Escolas’

O livro que André é coautor, ‘Volta ao Mundo em 13 Escolas’, ao lado de Camila Piza, Carla Mayumi e Eduardo Shimahara, fez essa reflexão de que mesmo olhando os outros países não deveria ser ignorado o que acontece de relevante no Brasil e nunca reduzir a nossa educação como uma tragédia, como se não existissem pessoas dos mais variados cantos que estão se esforçando infinitamente para criar projetos de educação que tenham impacto positivo.

Vale Jequitinhonha-MG

André cita o projeto Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), que surgiu no Vale Jequitinhonha, em Minas Gerais, e desenvolve ações educativas com crianças, jovens e adultos. “Esse projeto é tão fantástico e tem muito a ensinar para o resto do Brasil. Ele resgata a cultura popular brasileira como fundamental, além de valorizar o  território. As crianças adotam ruas, passam cuidar dessas ruas, elas circulam com os educadores para tentar descobrir o que as outras pessoas podem contribuir com a aprendizagem delas”, explica.

Ele ressalta que neste projeto, fica claro de que é preciso de toda uma aldeia para educar uma criança, que é uma visão de Moçambique, de que a escola não é suficiente, é preciso pensar também na educação como um processo que acontece na escola, na rua e em casa.

Visões de educação em disputa

Se olharmos o contexto da educação no momento atual, vemos que existem várias visões. Algumas delas tendem muito mais dizer que a educação na escola deveria se centrar em língua portuguesa, em matemática e aspectos muito mais básicos, onde o pensamento crítico não deveria se desenvolver. “Eu tenho outra visão, de que a escola é um espaço para que deva sim ser desenvolvido o pensamento crítico, onde a sensibilidade seja explorada e redescoberta”, afirma André.

Educação humanizada

José Saramago disse, no dia em que ganhou o prêmio Nobel de literatura, que “é mais fácil chegar a Marte que ao nosso semelhante”, o que de acordo com André, se reflete muito na educação de hoje no Brasil, onde é mais fácil encher um prédio de computadores do que criar processos pedagógicos que possibilitam as pessoas de ouvirem umas as outras.

 

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